A frota que lutou cercada: o “Plano Worek” no Báltico, setembro de 1939

A frota que lutou cercada: o “Plano Worek” no Báltico, setembro de 1939

19/01/2026 10:00

Entre 1.º e 25 de setembro de 1939, enquanto a Polônia era esmagada em terra por duas potências, um pequeno grupo de submarinos manteve uma guerra silenciosa no mar Báltico. Era o “Plano Worek” um esquema defensivo da Marinha polonesa para tentar conter, com meios limitados, a superior Kriegsmarine alemã e proteger a costa de um possível desembarque.

Submarinos em vez de encouraçados

Antes da guerra, os estrategistas poloneses sabiam que não podiam enfrentar a Alemanha em uma batalha naval convencional. A frota de superfície era reduzida e, às vésperas da invasão, os contratorpedeiros mais modernos foram enviados ao Reino Unido, na chamada Operação “Peking”, para continuarem a luta ao lado da Royal Navy.

Restaram no Báltico principalmente os submarinos, cinco unidades que se tornariam o centro do Plano Worek.

O conceito era simples e, ao mesmo tempo, arriscado: posicionar os submarinos em áreas pré‑definidas ao longo da costa polonesa, como se fossem “sacos” (daí o nome Worek, “saco” em polonês), prontos para atacar navios de desembarque e unidades que se aproximassem do litoral. Em vez de buscar uma guerra de corso ampla, os submarinos atuariam quase como minas móveis humanas, aguardando qualquer tentativa de invasão anfíbia.

1.º de setembro: guerra declarada também no mar

Quando, na madrugada de 1.º de setembro, a Alemanha cruzou a fronteira terrestre e atacou Westerplatte, o Plano Worek foi acionado. Os submarinos poloneses deslocaram‑se para as áreas de patrulha designadas, cobrindo aproximativamente os acessos marítimos à costa e às principais bases. Ao mesmo tempo, o comando sabia que cada saída ao mar era um jogo de sobrevivência: o Báltico era raso, estreito e vigiado por navios e aviões alemães.

Na prática, os comandantes poloneses precisavam conciliar ordens rígidas de não desperdiçar torpedos com a necessidade de se manter furtivos, evitando ser caçados por contratorpedeiros e hidroaviões. Cada contato com o inimigo era avaliado quase como um dilema moral e operacional: atacar e arriscar a revelação da posição, ou manter o navio escondido à espera de um alvo mais decisivo.

Uma espera tensa por um desembarque que nunca veio

O Plano Worek partia da premissa de que a Alemanha poderia tentar um grande desembarque na costa polonesa, complementando o avanço terrestre. O que a história mostraria depois é que a estratégia alemã não previa, naquele momento, uma operação anfíbia de grande porte contra a Polônia: o grosso do esforço militar vinha por terra e pelo ar.

Assim, durante boa parte de setembro, os submarinos poloneses ficaram em posição, patrulhando, mergulhando, reposicionando‑se e tentando se aproximar de navios inimigos que, em muitos casos, navegavam bem protegidos ou fora do alcance ideal de ataque. A ofensiva que Worek esperava deter uma frota de desembarque rumo à costa  simplesmente não se materializou. Em vez disso, os submarinos passaram a ser alvo de ações anti‑submarino intensas, com cargas de profundidade e perseguição constante.

Decisões difíceis: neutralidade, internamento e fuga

À medida que os dias passavam e a situação em terra se deteriorava, a viabilidade do Plano Worek diminuía rapidamente. A costa polonesa estava sob crescente controle alemão, portos eram bombardeados ou ocupados, e a chance de reabastecer, reparar e manter as unidades no Báltico tornava‑se mínima. Diante da perspectiva de destruição certa ou captura, os comandantes passaram a considerar alternativas.

Alguns submarinos receberam ordens de tentar romper o bloqueio e alcançar portos neutros, como na Suécia, onde seriam internados pelo restante da guerra, mas ao menos poupados à captura alemã. Outros tentaram seguir para o Reino Unido, repetindo, sob a água, o movimento de seus companheiros de superfície na Operação Peking uma travessia extremamente perigosa em mar dominado pelo inimigo e sob vigilância da Luftwaffe.

Um plano militarmente limitado, mas simbolicamente forte

Do ponto de vista estritamente operacional, o Plano Worek teve resultados modestos: poucos ataques bem‑sucedidos e nenhum impacto decisivo na capacidade de ofensiva alemã no Báltico. A ausência de grandes desembarques e a superioridade total da Kriegsmarine na região fizeram com que os submarinos poloneses lutassem, essencialmente, para sobreviver e manter uma presença simbólica de resistência no mar.

Mas, em termos históricos, Worek representa mais do que números de navios afundados. Mostra a tentativa de um país cercado em terra e no mar de usar todos os recursos disponíveis inclusive uma pequena arma submarina para defender sua soberania até o limite. Entre 1.º e 25 de setembro de 1939, aqueles cascos silenciosos no Báltico não apenas executavam um plano naval; escreviam o capítulo marítimo de uma campanha em que a Polônia, mesmo superada em força, insistiu em lutar em todos os fronts possíveis.

 

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Murilo Hubert Schenfeld
Jornalista – Registro nº 0012468/PR