Cirurgias estéticas e as Grandes Guerras

Cirurgias estéticas e as Grandes Guerras

07/08/2018 10:00

Durante a Primeira Guerra Mundial, vários soldados tiveram seus rostos desfigurados, sendo que, frequentemente voltavam do campo de batalha com queimaduras, sem olhos, nariz, com buracos que ocupavam grande parte da face e, em virtude disso, um grupo de profissionais tiveram que criar um campo completamente novo, o das cirurgias reconstrutoras. 

Porém, os primeiros registros de cirurgias plásticas da humanidade remontam mais de dois mil anos antes de Cristo, quando os papiros vindos da Índia relatavam técnicas rudimentares de reconstrução de partes do corpo, tendo como principal, as cirurgias de nariz, os quais eram mutilados como castigo para os hindus.

A Primeira Guerra foi uma guerra de trincheiras, onde os membros e o torso dos soldados ficavam protegidos, enquanto que o pescoço e cabeça acabavam ficando expostos à artilharia. Os soldados que acabavam feridos, encontravam grande dificuldade para voltar ao convício da sociedade.

No ano de 1917, o médico neozelandês Harold Gillies buscou amenizar o sofrimentos desses soldados mutilados e acabou revolucionando a medicina. 

Harold Gillies estudou medicina na Universidade de Cambridge e, quando tinha 30 anos, foi enviado para a França para lutar na Primeira Guerra. No front, ele conheceu Charles Auguste Valadier, um dentista francês que se esforçava para substituir as mandíbulas dos soldados feridos por projéteis, além de reconstruir seus dentes. 

Vendo o esforço de Charles, Harold percebeu que era importante ajudar a reconstruir o rosto dos soldados feridos e, assim que retornou para a Inglaterra, começou a pressionar as autoridades militares para dar início às cirurgias no Hospital Militar de Cambridge. 

Com a permissão para ocupar quase mil leitos, Harold começou a recrutar a sua equipe, que consistia em médicos, desenhistas, escultores e fotógrafos.

 

Queen's Mary Hospital  - 1917

Kathleen Scott, uma célebre escultora, foi voluntária na equipe de Harold. Ela moldava réplicas dos rostos dos soldados logo depois das lesões, para que os cirurgiões pudessem planejar e testar. 

Enquanto os registros médicos da época eram compostas por desenhos feitos à lápis, o cirurgião e professor de artes Henry Tonks preferiu usar o giz pastel. Seus retratos serviram como registro e sobreviveram até os dias de hoje como obras de arte que demonstram as atrocidades da guerra.

 

 

A primeira cirurgia foi realizada em 1917. Porém o grande desafio foi para encontrar maneiras de cultivar o tecido para preencher os buracos causados por explosões. Harold acabou desenvolvendo uma técnica que consiste na retirada de um tubo de pele saudável de um local não atingido e conectava-se no local em que o transplante seria realizado. Dessa forma, depois de um tempo, a pele se regenera naturalmente no local onde ela foi retirada.

O primeiro paciente de Harold foi Walter Yeo, de 25 anos, que sofreu um acidente com uma arma que acabou resultando em profundas queimaduras e na perda das pálpebras. 

 

Contudo, apesar dos esforços, infelizmente a maioria dos jovens soldado continuavam gravemente desfigurados, mesmo depois de várias cirurgias reconstrutoras. Muitos não apresentavam melhoras significativas para serem fotografados para os arquivos do hospital. 
 

Para esses casos, foi criado o Departamento de Máscaras para Desfiguramento Facial, o qual era coordenado pelo pediatra Francis Derwnet Wood, que trabalhava como voluntário. Nesse Departamento foi desenvolvida uma técnica de confecção de máscaras em metal frio, moldadas para resgatar a aparência dos pacientes antes de sofrerem sua perda. Essa máscara de metal veio para substituir as máscaras de couro. 

Para desenvolver as máscaras de metal, eram necessárias várias semanas de trabalho, onde, primeiramente era feito um molde em gesso do estado atual do paciente, depois talhado em madeira e o molde da máscara preenchia o local a ser coberto com o encaixe perfeito. Para completar as feições, Wood usava as fotografias antigas de cada paciente como referência. Por fim, uma fina camada de metal cobria o molde de madeira, para depois ser retirada e usada pelo paciente. 

Por fim, a máscara era presa ao rosto do paciente através de óculos ou fitas de tecido e, então, Wood realizada a pintura, diretamente no rosto, para que o tom usado ficasse o mais próximo do tom de pele do paciente.

O trabalho de Wood serviu de inspiração para a escultora Anna Coleman Ladd, que criou seu estúdio de máscaras em Paris, onde ela também criava máscaras em um ambiente acolhedor, onde os soldados conversavam e fumavam cigarros, enquanto Anna observava suas lesões e criava as máscaras. Ladd tinha uma pequena equipe de quatro pessoas e, constantemente recebiam cartas agradecendo pelo trabalho feito.

Aqui tem um vídeo muito interessante de Anna Coleman Ladd trabalhando em seu estúdio em Paris (O vídeo não tem som!).

 

Entre os anos de 1917 e 1925, a equipe de Harold Gillies atendeu cerca de cinco mil pacientes, sendo realizadas, ao todo 11 mil operações, que acabou contribuindo para o grande avanço das cirurgias plásticas. Durante a Segunda Guerra Mundial, Gillies atuou como consultor do Ministério da Saúde da RAF e do Almirantado. Ele organizou unidades de cirurgias plásticas em várias partes da Inglaterra e inspirou colegas a fazerem o mesmo. 

 Harold Gillies também serviu de influência para seu primo Archibald McIndoe, que trabalhou no avanço das técnicas durante a Segunda Guerra Mundial. 
 
Quando a Segunda Guerra Mundial começou, Gillies foi para Rooksdown House, próximo de Basingstoke, que acabou se tornando a principal unidade de cirurgia plástica do exército e McIndoe foi para o recém construído Queen Victoria Hospital, em Sussex,onde fundou um centro de cirurgia plástica e de mandíbula. Nesse centro, ele tratou queimaduras profundas e desfiguração facial grave. McIndoe era um cirurgião brilhante e ele não apenas desenvolveu novas técnicas para tratar os rostos e mãos queimados, mas também reconheceu a importância da reabilitação das vítimas, em especial, a  reintegração social. 
 
MsIndoe em uma cirurgia

Os trabalhos importantes de McIndoe incluiram o desenvolvimento do enxerto de pele e da descoberta de que a imersão em solução salina, ajudaria na cicatrização. Após o fim da Segunda Guerra, McIndoe retornou ao seu consultório e foi condecorado em 1947 por seu notável trabalho em restaurar as mentes e corpos dos jovens pilotos queimados durante a Guerra. 

Quer saber mais sobre as cirurgias plásticas? Tem um livro para download com bastante fotos e um texto detalhado. Está em inglês, mas vale a pena dar uma olhada. 

Outro fato interessante é que, com base nos arquivos do Queen's Mary Hospital, o artista Paddy Hartley desenvolveu o Project Façade. Desde 2004 o artista pesquisou e interpretou as histórias pessoais e cirúrgicas de alguns dos militares que passaram por reconstrução cirúrgica sob o comando de Harold Gillies. Paddy produz esculturas, usando uniformes semelhantes aos usados pelos homens feridos. 

Também no site Gillies Archive podemos encontrar um vasto material sobre o trabalho de Harold Gillies. 

 

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 Por Juliana Hembecker Hubert