O Ataque a Mers-el-Kébir: O Dia em que a Marinha Britânica Atacou sua Aliada Francesa

O Ataque a Mers-el-Kébir: O Dia em que a Marinha Britânica Atacou sua Aliada Francesa

25/05/2026 10:00

 

Em 3 de julho de 1940, nas águas calmas de Mers-el-Kébir, na Argélia francesa, ocorreu um dos episódios mais controversos da Segunda Guerra Mundial. A Marinha Real britânica lançou um ataque surpresa contra a frota de guerra ancorada ali, visando neutralizar navios que poderiam cair nas mãos alemãs após a recente rendição da França. Esse confronto resultou na destruição parcial da esquadra francesa, com 1.297 marinheiros mortos, e marcou um ponto de ruptura na antiga aliança anglo-francesa.

Contexto da Rendição Francesa

A invasão alemã da França em maio de 1940 avançou rapidamente, culminando na queda de Paris em 14 de junho e na assinatura do armistício em Compiègne, em 22 de junho. O governo francês, agora sob o marechal Philippe Pétain, estabeleceu-se em Vichy e concordou em cessar hostilidades com a Alemanha. Preocupado com os termos do armistício, que exigiam a entrega de parte da frota francesa à custódia alemã, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill temia que os modernos navios de guerra – como os encouraçados Richelieu e Dunkerque – fossem usados contra os Aliados. Churchill declarou no Parlamento, em 4 de julho: "Não podemos arriscar que uma das maiores marinas do mundo caia nas mãos de Hitler". Essa decisão estratégica priorizava a sobrevivência do Império Britânico, isolado após a evacuação de Dunquerque.

O Ultimato Britânico e as Negociações Tensas

No dia 3 de julho, por volta das 17h45, o vice-almirante James Somerville, comandando a Força H da Marinha Real saída de Gibraltar, aproximou-se de Mers-el-Kébir com seis navios, incluindo os encouraçados HMS Hood e HMS Valiant. O almirante britânico James North enviou um ultimato ao almirante francês Marcel-Bruno Gensoul, exigindo que a frota francesa se juntasse aos britânicos, navegasse para portos neutros como as Antilhas francesas ou se autoafundasse para evitar captura alemã. Gensoul, leal ao governo de Vichy, rejeitou as propostas após horas de negociações por telefone e sinal, considerando-as uma humilhação. "Não entregaremos nossos navios aos ingleses", respondeu Gensoul, ecoando a indignação francesa de que os antigos aliados agora os tratavam como inimigos.

O Início do Combate e a Destruição da Frota

Às 17h54, sem acordo, Somerville ordenou fogo. Em apenas 10 minutos, projéteis de 15 polegadas dos encouraçados britânicos devastaram a base. O encouraçado Bretagne explodiu após ser atingido por seis disparos, afundando com 977 tripulantes. O navio-sister Provence e os contratorpedeiros Mogador e Volta foram danificados, enquanto o Dunkerque encalhou após impactos. O Strasbourg escapou para Toulon, e o Richelieu, ancorado em Dakar, permaneceu intacto. O ataque causou 1.297 mortes francesas, incluindo feridos graves, contra apenas cinco britânicos. A ação rápida seguiu uma cronologia precisa: ultimato às 17h20, recusa às 17h45 e bombardeio às 17h54, encerrando-se com a retirada britânica ao anoitecer.

Consequências Imediatas e Legado Estratégico

O ataque enfureceu a França, levando Vichy a romper relações diplomáticas com o Reino Unido e atacar a frota britânica em Gibraltar. No entanto, cumpriu seu objetivo: os alemães nunca obtiveram os navios intactos, e a Marinha francesa em Toulon se autoafundou em 1942 para evitar captura. Churchill defendeu a operação como "sangrenta, mas necessária", salvando a supremacia naval britânica na Batalha do Atlântico. Décadas depois, em 1990, um memorial em Mers-el-Kébir honra as vítimas, simbolizando as tragédias de alianças rompidas em tempos de guerra total. Esse episódio ilustra como, em 1940, a sobrevivência ditou escolhas brutais, moldando o curso do conflito global.