Um Brasileiro na RAF perdido no dia D

Um Brasileiro na RAF perdido no dia D

08/08/2018 10:00

Que o Brasil participou da Guerra todos sabemos. Que o Brasil tinha um grupo de caça, também é de conhecimento de todos ou ao menos deveria ser. Mas o que poucos sabem, são dos brasileiros que lutaram por outra nacionalidade. Foram muitos que lutaram tanto pelo eixo como pelos aliados e hoje começamos falando de Pierre Henri Clostermann.

No dia 28 de fevereiro de 1921, na cidade de Curitiba - Paraná, nascia Pierre, filho de Jacques Clostermann, um Diplomata Francês em serviço no Brasil e ex combatente da Primeira Guerra. Pierre completou seus estudos no Brasil e logo depois foi para os EUA estudar Engenharia Aeronáutica.

Em 1940, a França era devastada pelas forças nazistas e já era tomada por Hitler. Diante de tal situação, Jacques encaminha um telegrama para seu filho, que ainda cursava nos EUA sua faculdade, com o seguinte dizer:

"Junte-se ao general de Gaulle ou não serás mais meu filho!"  

No mesmo momento, Pierre abandonou seus estudos e partiu direto para Inglaterra; ele seria voluntário na "Franceses Livres", comandando pelo general Charles de Gaulle, que nesse momento da guerra, estava sitiado na Inglaterra. O general Charles não concordava com o armísticio celebrado pelo Marechal Philippe Pétain e, sendo assim, Charles foi para a Inglaterra para convocar os franceses a continuar lutando contra a tirania alemã. Em 18 de julho, em uma transmissão pela BBC, o general fazia um apelo para todos os fenaces lutarem e esse incentivo teve um efeito imediato na moral dos franceses. 

"Les chefs qui, depuis de nombreuses années, sont à la tête des armées françaises, ont formé un gouvernement. Ce gouvernement, alléguant la défaite de nos armées, s'est mis en rapport avec l'ennemi pour cesser le combat. Certes, nous avons été, nous sommes, submergés par la force mécanique, terrestre et aérienne, de l'ennemi. Infiniment plus que leur nombre, ce sont les chars, les avions, la tactique des Allemands qui nous font reculer. Ce sont les chars, les avions, la tactique des Allemands qui ont surpris nos chefs au point de les amener là où ils en sont aujourd'hui. Mais le dernier mot est-il dit ? L'espérance doit-elle disparaître ? La défaite est-elle définitive ? Non ! Croyez-moi, moi qui vous parle en connaissance de cause et vous dis que rien n'est perdu pour la France. Les mêmes moyens qui nous ont vaincus peuvent faire venir un jour la victoire. Car la France n'est pas seule ! Elle n'est pas seule ! Elle n'est pas seule ! Elle a un vaste Empire derrière elle. Elle peut faire bloc avec l'Empire britannique qui tient la mer et continue la lutte. Elle peut, comme l'Angleterre, utiliser sans limites l'immense industrie des Etats-Unis. Cette guerre n'est pas limitée au territoire malheureux de notre pays. Cette guerre n'est pas tranchée par la bataille de France. Cette guerre est une guerre mondiale. Toutes les fautes, tous les retards, toutes les souffrances n'empêchent pas qu'il y a, dans l'univers, tous les moyens nécessaires pour écraser un jour nos ennemis. Foudroyés aujourd'hui par la force mécanique, nous pourrons vaincre dans l'avenir par une force mécanique supérieure. Le destin du monde est là. Moi, Général de Gaulle, actuellement à Londres, j'invite les officiers et les soldats français qui se trouvent en territoire britannique ou qui viendraient à s'y trouver, avec leurs armes ou sans leurs armes, j'invite les ingénieurs et les ouvriers spécialistes des industries d'armement qui se trouvent en territoire britannique ou qui viendraient à s'y trouver, à se mettre en rapport avec moi. Quoi qu'il arrive, la flamme de la résistance française ne doit pas s'éteindre et ne s'éteindra pas. Demain, comme aujourd'hui, je parlerai à la radio de Londres."

Charles de Gaulle.

 

NOTA: Tradução livre feito pela nossa equipe. A intenção não é  medir conhecimento da língua francesa e sim trazer uma pequena noção do que se trata o discurso para quem não compreender, por isso erros gramaticais podem surgir. 

"Os líderes que por muitos anos estiveram à frente dos exércitos franceses formaram um governo. Este governo, alegando a derrota dos nossos exércitos, fez contato com o inimigo para deter a luta. Certamente, ficamos impressionados com a força mecânica, terrestre e aérea do inimigo. Infinitamente mais do que o seu número, são os tanques, os aviões, as táticas dos alemães que nos fazem recuar. São os tanques, os aviões, as táticas dos alemães que surpreenderam nossos líderes a ponto de trazê-los onde estão hoje. Mas a última palavra é que é dito? Deve a esperança desaparecer? A derrota é definitiva? Não! Acredite, eu que falo com você conscientemente e digo que nada está perdido para a França. Os mesmos meios que nos derrotaram podem trazer a vitória um dia. Porque a França não está sozinha! Ela não está sozinha! Ela não está sozinha! Ela tem um vasto império atrás dela. Ela pode fazer um bloqueio com o Império Britânico que mantém o mar e continua a luta. Pode, como a Inglaterra, usar sem limites a imensa indústria dos Estados Unidos. Esta guerra não se limita ao território infeliz do nosso país. Esta guerra não é decidida pela Batalha da França. Esta guerra é uma guerra mundial. Todas as faltas, todos os atrasos, todos os sofrimentos não impedem que haja, no universo, todos os meios necessários para esmagar nossos inimigos um dia. Atingidos pela força mecânica hoje, poderemos conquistar futuro por uma força mecânica superior. O destino do mundo está lá. Eu, General de Gaulle, atualmente em Londres, eu convido oficiais e soldados franceses que estão em território britânico ou que viriam para estar lá, com suas armas ou sem suas armas, convido engenheiros e trabalhadores especialistas na indústria de armas em território britânico ou que estão vindo para encontrá-lo, para entrar em contato comigo. Aconteça o que acontecer, a chama da resistência francesa não deve sair e não se apagará. Amanhã, como hoje, vou falar na rádio de Londres."

Charles de Gaulle

 

 

Le Groupe da Chasse "Alsace"

Após essa convocação e a intimação de seu pai, Pierre chegou à Inglaterra e cursou a escola de Pilotos Militares. Ao término, se graduou como sargento-piloto e logo ingressou na RAF (Royal Air Force), fazendo parte do esquadrão 341, o Grupo de caça especifico para franceses -"Grupo de caça da Alsácia". 

Após alguns meses na escola de aviação no País de Gales, Pierre se vê dentro de um Spitfire, pronto para decolar para o "Grande Show", como ele relata em seu livro " O Grande Circo". Seu Spitfire tem a matrícula TO-S e, após vestir o pára-quedas, é hora de relembrar tudo o que aprendeu: o nome dado é BTFCPPUR (B - Brakes - Freio/T Trim - Fletnes de correção de comandos/F Flap - Freio aerodinâmico/C Contacts / Pression - Pneumático/ P Petrol - Gasolina/ U Undercarriage - Trem de pouso, escamoteável e Radiador. Após checar tudo, é hora de seguir para sua primeira missão.

"Antes de colocar o pára-quedas, detenho-me por um instante a contemplar o avião - as linhas nobres da fuselagem, o motor Rolls Royce finamente carenado; um autêntico puro-sangue." 

Pierre Henri O Grande Circo. Pág. 18

 

Já em combate em 1943, como piloto sua missão é defender os bombardeiros juntamente com outros 24 Spitfire a 25 mil pés e, logo depois descem a 15 mil pés para ocupar a posição de patrulha. Por inexperiência durante o voo, o motor pára abruptamente. Ele havia esquecido de reabastecer o avião, pois ele consumiu muito combustível para se manter em posição de combate. Em pensamento rápido, ele reabastece e o motor volta a funcionar. Esse mesmo piloto que, por nervosismo cometeu esse ato de desatenção, também derrubou dois Focke- Wulf FW - 190 nessa missão. 

Durante um conflito o piloto deve estar atento 100%,  ele deve manejar sua aeronave com maestria e saber tudo que se deve fazer em caso de pane, em caso de ataque e além disso tudo, deve estar atento ao que acontece no céu e no chão. São infinitas atividades que um piloto de combate deve prestar a atenção que um erro ou deslize pode custar caro para sua esquadrilha ou para o seu emocional. Em uma das missões de Pierre, ele como voava como Ala e deveria proteger seu comandante, René Mouchotte, o primeiro estrangeiro a comandar um agrupamento da RAF. René em combate fez uma manobra muito invasiva, se colocando em risco e ficando fora da cobertura de seus alas. Nisso René estava em combate com vários caças alemães e pelo rádio Réne alertou que estava sem proteção e por fim ele foi abatido e morto. 


Depois desse evento, Pierre foi transferido para um novo esquadrão da RAF, passando então a voar com pilotos da RAF Britânicos. Acredita-se que ele tenha abatido cerca de 30 aviões inimigos em ar, e mais alguns em solo; também destruiu tanques,e viaturas militares (caminhões, jipe), participando de 432 missões.


Único Brasileiro no dia D


Além de tudo que já passou, ele esteve presente em todo o preparativo do ataque do dia D, quando o capitão Rankin foi convocado para comparecer ao Quartel General das Forças Aéreas Expedicionária Aliadas, em Uxbridge. Ele foi como assistente do capitão e perambulava por toda as casamatas subterrâneas. Segundo o próprio Pierre:


"Jamais vi tantas estrelas e galões chegando até o cotovelo. O indivíduo mais simples que se encontre é, no mínimo, Air Commodore."    


Já no final da Guerra, ele comandava uma ala inteira da RAF como tenente-coronel, patente concedida em combate, uma vez que sua formação era de sargento e não possuía curso superior. Ao retornar a Força Aérea Francesa, ingressou como Primeiro-Tenente.


Foi condecorado com diversas medalhas, dentre elas a Distinguished Flying Cross (DFC), a mais alta condecoração da Força Aérea Britânica e com a medalha Ordem do Mérito Santos-Dumont pelo Brasil.


Após o final da guerra, ele se formou em Engenharia Aeronáutica e, anos depois, voou em combate novamente pela Força Aérea Francesa, na guerra contra a Argélia.


Se aposentou como Coronel e é considerado um Ás. Seus livros são leitura obrigatória para qualquer aviador.

 

MEDALHAS

 

Compagnon de la Libération Médaille Militaire

Croix de Guerre 1939-45 com 19 palmes

Croix de la Valeur Militaire com 2 citações

 

Cruz livre do serviço do voluntário do francês

Cruz de serviço distinto (EUA)

Distinta cruz de vôo com barra

 Estrela para ferido

Estrela de prata

Grande-Croix do francês d’Honneur de Légion,

Medalha francesa da resistência

Medalha de ar

Ordem de distinto serviço

Ordem do Mérito Santos-Dumont

 

 

 Dica Zheit:


Um documentário muito legal que fala do Pierre foi feito pelo João Barone sobre os 60 anos do dia D na Segunda Guerra Mundial.

 

 

 

A Zheit esteve presente na homenagem feita pelo Museu do Expedicionário de Curitiba ao João Barone.

 

 

Gostou? Compartilhe o post!!

Fique por dentro de tudo! Siga-nos no Facebook Twitter Instagram  e se inscreva no nosso canal no Youtube!!

Também temos um grupo de discussão sobre as Guerras no Facebook.Se você tem algum post, foto, vídeo, curiosidades sobre as Guerras, não deixe de compartilhar conosco!!

 https://www.facebook.com/groups/1828285280803861/

 

Por Murilo Hubert Schenfeld