Gueules cassées - as faces desfiguradas da I Guerra

Gueules cassées - as faces desfiguradas da I Guerra

24/03/2021 10:00

Soldados com ferimentos faciais na Primeira Guerra Mundial foram, apesar do progresso da cirurgia plástica, uma presença particularmente desconfortável nas sociedades de guerra e pós-guerra.

Tem matéria aqui no site sobre as cirurgias plásticas nas Grandes Guerras. Leia mais aqui 

Em 28 de junho de 1919, os participantes da Conferência de Paris se reuniram para assinar o tratado de paz que marcou oficialmente o fim da Primeira Guerra Mundial. No cenário dramático do Salão dos Espelhos em Versalhes, os delegados dirigiram-se à mesa onde o documento foi exposto. 

Antes de chegar lá, eles tiveram que passar por cinco soldados franceses com ferimentos faciais, convidados pelo primeiro-ministro francês Georges Clemenceau. Embora tenham permanecido em silêncio durante a cerimônia, eles não passaram despercebidos aos presentes.

Apesar do lugar dos cinco combatentes desfigurados no centro do palco neste evento, a presença desses homens e o papel que desempenharam na guerra e no período entre guerras não são frequentemente comentados ou estudados. 

Não porque os gueules cassées, como os combatentes desfigurados passaram a ser conhecidos na França, fossem muito poucos, ou porque não se misturassem com civis, pelo contrário, o silêncio em torno de soldados e veteranos desfigurados pode ser explicado pelas dolorosas lembranças evocadas por seus rostos e pelo fato de eles próprios muitas vezes desejarem se misturar, não se destacar.

A expressão "Gueules cassées" foi mencionado pelo coronel Picot, o primeiro presidente da União dos feridos do rosto e da cabeça, e indica os soldados sobreviventes da Primeira Guerra Mundial que sofreram um ou mais feridas em combate. Essa expressão também se refere aos soldados que foram profundamente marcados psicologicamente pelo conflito, que não puderam recuperar totalmente a vida civil ou que, nos casos mais graves, tiveram que ser internados para sempre. (LEIA mais sobre o Shell Shock AQUI).

No final da Grande Guerra, o número total de mortos era de 9 milhões, incluindo mais de 2 milhões de alemães, quase 1,5 milhão de franceses, 1,8 milhão de russos, 750.000 britânicos e 650.000 italianos. Em proporção à sua população, a França é o segundo país onde as perdas foram mais significativas.

Esse número não corresponde apenas às mortes nos campos de batalha, mas também incluiu soldados que morreram em casa, gravemente afetados por doenças como a gripe espanhola, mas também homens que sucumbiram às consequências de suas doenças. 

Assim, após a guerra, o número de soldados que morreram em conseqüência de seus ferimentos aumentou para aproximadamente 500.000, enquanto a gripe causou mais 200.000 mortes na França.

Alguns soldados desfigurados durante a Guerra encontraram um rosto graças a uma oficina de escultura "Studio for Portrait Masks", criada pela artista americana Anna Coleman Ladd. 

Entre seus colaboradores está a escultora francesa Jane Poupelet, nascida em Dordonha e formada na Escola de Belas Artes de Bordeaux. Jane foi uma das poucas mulheres a fazer parte do círculo dos escultores Maillol, Giacometti e Bourdelle no início do século XX e  seu talento só se compara à sua coragem: de 1918 a 1920, ela decidiu colocar sua arte a serviço dos deficientes durante a Primeira Guerra Mundial, uma forma de denunciar os horrores do conflito e ao mesmo tempo ajudar concretamente os "Gueules cassées", que não tinham mandíbula, olho, nariz. 

 

Jane juntou-se ao “Studio for Portrait Mask”, uma oficina parisiense onde os escultores Francis Derwent Wood e Anna Ladd colaboraram sob a égide da Cruz Vermelha americana. Essa empreitada consistia em recriar, a meio caminho entre a moldagem médica e a composição artística, os rostos dos feridos por máscaras que obscureciam a área mutilada.

Essas próteses eram feitas primeiro em gesso, galvanizadas com cobre e depois cobertas com uma tinta esmalte para simular a pele do soldado. Uma tarefa muito difícil, dadas as técnicas ainda primárias da época e a grande atenção necessária para fazer uma única máscara, durando cerca de um mês de muito trabalho para uma única prótese.

As máscaras eram consideradas pesadas, desagradáveis ​​de usar e as demarcações muitas vezes são muito visíveis. Mas, para alguns rostos quebrados, é um elemento capital encontrar uma vida civil.

Fontes: allodocteurs, peterlang, tandfonline, researchgate, france24, sciencedirect, jebeurrematartine, rue89bordeaux

Por Juliana Hembecker Hubert

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